Clipping - Fonte Jornal O Povo

A fantástica história de João Batista dos Santos

No curta-metragem Fractais Sertanejos, o cineasta cearense Heraldo Cavalcanti expõe a arte e a filosofia por trás da obra de João Batista dos Santos, o Janjão

Marcos Sampaio  

Aos 27 anos, o pedreiro João Batista dos Santos, natural de Aurora, distante 406,8 km de Fortaleza, precisou fazer uma cirurgia na perna. Durante o procedimento, o médico perguntou pela anestesia e ouviu como resposta que a haviam esquecido. Ele, diante disso, aplicou-lhe uma anestesia geral, o que levou o paciente a um estado de coma. João, quando percebeu, estava em um túnel de luz em direção ao céu. Lá, ele soltou um palavrão e chegou à conclusão de que havia morrido. Começou, então, a fazer o caminho de volta e, nas próprias palavras, viu o mundo coberto de cores turvas "como uma Coca-Cola no fundo do copo, um sabonete Phebo quando tá bem fininho".

Nesse retorno, Janjão, como é mais conhecido, decidiu fazer uma reavaliação de tudo que havia feito até ali e renasceu decidido a se tornar artista. Hoje, aos 53 anos, sua história está registrada no curta-metragem Fractais Sertanejos, do cearense Heraldo Cavalcanti. O filme foi eleito pelo público um dos dez melhores no 20º Festival de Curtas Metragens de São Paulo, recebeu o Prêmio do Centro Técnico Audiovisual (CTAV), do Ministério da Cultura (MinC), e um troféu dado pelo Centro Cineclubista de São Paulo.

Frutos de uma revolução na geometria e na estatística, os fractais são estruturas complexas, estudadas pela matemática, física e pela teoria do caos. Baseado nestas formas e estudos, Janjão começou a desenvolver um trabalho que chamou de "tudoenada". São obras abstratas, entalhadas em madeira. Por telefone, ele contou que teve o primeiro contato com a teoria dos fractais através de uma revista que achou em algum lugar, há 17 anos, e, desde então, não parou de estudar o assunto. "Esse filme é a minha vida, traduzindo o que sou, o que tenho e o meu trabalho", diz ele emocionado. Viúvo de sua primeira esposa e pai de seis filhos, Janjão hoje vive de sua arte, que já encontrou admiradores na Inglaterra, Japão e Alemanha. Com seu linguajar simples, ele se orgulha de dizer que sempre gostou de ler tudo que via na sua frente e não esconde o orgulho que tem da transformação que passou.

"Foi pura espiritualidade. Quando acordei, não queria conversa com ninguém. Fiz uma reciclagem da minha vida, desde o dia em que nasci. Hoje sou um samurai das artes. Um defensor das artes". O diretor Heraldo Cavalcanti conta que Fractais Sertanejos nasceu de uma busca particular pela cultura tradicional cearense, sobre a qual, até então, ele ainda mantinha uma visão antagônica. Foi assim que decidiu ir para o Cariri procurar alguém que fizesse uma obra diferente ou, como ele descreve, "que não ficasse só no pífano, no Padre Cícero e no cangaceiro". Lá, lhe apontaram Janjão, que, logo no primeiro contato, começou a falar até encher duas horas de gravação e emocionar quem estava presente. "Ele é um falastrão. Também é muito vaidoso e disse que, se tivesse nascido nos EUA, estariam fazendo era um longa metragem", ri Heraldo, que acabou ficando amigo do artista e se impressionou porque ele não tinha o olhar de antítese sobre a tradição.

Entre janeiro e agosto de 2007, as filmagens de Fractais Sertanejos passaram por Fortaleza, Aurora e São Paulo, onde o escultor morou e trabalhou. Com 19 minutos, o filme foi pensado, inicialmente, para compor, com outros três personagens, um episódio do DOC TV, programa do Ministério da Cultura, sobre a produção tradicional do Cariri. Mesmo não tendo entrado para a série, Heraldo sabia que tinha um bom material em mãos, principalmente a parte que falava de Janjão. Por isso, decidiu transformá-lo num curta.

Claramente orgulhoso com o resultado de Fractais Sertanejos, Heraldo elege a sequencia filmada no Rio Salgado como a sua preferida. "O menino mergulha e um senhor atravessa como se fizessem parte do rio. Isso é totalmente fractal". Ele também assume que estava totalmente apreensivo com o que o público paulista iria pensar de "um cara do sertão que meche com fractais. Mas, esse filme me ensinou três coisas: um filme tem que me tirar do lugar onde estou, não somente em relação ao espaço físico; a gente não tem que ficar entre antípodas. Precisamos unir as coisas para criar outras; também não tinha ideia do poder do cinema de unir as pessoas. O publicou adotou o vocabulário do Janjão e não o viu como exótico". Também orgulhoso, Janjão declara: "Esse filme vai ser um legado pras pessoas saberem tudo que eu passei até aqui".


EMAIS

- Antes de Fractais Sertanejos, Heraldo Cavalcanti dirigiu os curtas Confiança (2002) e A insuportável comedora de chocolates (2003). Também dirigiu na TVC o programa Cultura em Cena. Atualmente, ele trabalha no curta A casa das horas, com a participação da atriz Nicette Bruno.

- Informações sobre os bastidores e cenas excluídas de Fractais Sertanejos estão sendo postadas no blog
anitracinematv.blogspot.com


Fonte: O Povo
Caderno: Vida & Arte
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