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Cinema peregrino

Em busca de financiamento e contrato de co-produção internacional para o longa-metragem Rânia, a cineasta cearense Roberta Marques participa de rodada de negociações no Festival de Cannes, na França

Juliana Girão
da Redação

 
Como ensina a sabedoria popular, jacaré que fica parado vira bolsa. Seguindo o ditado, a cineasta cearense Roberta Marques parte para o Festival de Cannes, um dos mais prestigiados do mundo, com o projeto do longa-metragem Rânia debaixo do braço. Durante o evento, que acontece entre os dias 13 e 24 deste mês, a cineasta deve participar de rodadas de negociações com produtores estrangeiros no stand mantido pelo Festival dês 3 Continents de Nantes, na França. "Há alguns interesses que se completam na busca por essas parcerias. Um deles é o fator orçamento. No caso, aumentar os fundos para fazer a produção andar mais e melhor, pagar bem os profissionais, ter a possibilidade de ousar mais na produção em termos estéticos e artísticos, e tudo mais que o dinheiro proporciona. Ao lado disso, há o grande interesse de que a produção seja internacional, ou seja, que o filme atinja o público internacional", explica a cineasta, em entrevista na manhã de ontem, pela Internet, de Nova York, onde ela finaliza o curta-metragem Looking Forward - Man and Woman, uma co-produção com Holanda, Estados Unidos e Brasil.

O convite para ir a Cannes surgiu durante a participação da cineasta no Produire au Sud Recife 2009, uma oficina de produção cinematográfica realizada no mês passado na capital de Pernambuco pelo Festival dês 3 Continents de Nantes. Entre os oito projetos selecionados para o encontro, com foco na apresentação de estratégias de co-produção internacional, havia apenas esse único longa-metragem cearense. Com título provisório de Rânia, o filme de Roberta foi aprovado, no final do ano passado, pelo Edital de Fomento à Produção da Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura e receberá um apoio financeiro dentro da categoria de baixo orçamento (cujo teto é de R$ 1 milhão). Em fevereiro, o projeto também foi um dos sete selecionados para representar o Brasil no Encontro de Produtores Brasil/Alemanha, que ocorreu durante a 59ª edição do Festival de Berlim. "Não podemos achar que o Ceará tem que buscar apoio fora. Assim como o Brasil hoje em dia produz cinema com recursos próprios, é importante também que o Ceará volte a acreditar no cinema. Houve um momento que isso aconteceu, mas passou. Não estou falando em criatividade. Criatividade tem muita. Estou falando da indústria cinematográfica", pontua.
Realizado pela Latitude Sul Produções, com produção executiva de Ailton Franco Jr., o filme de Roberta Marques é sua estreia na direção de longa-metragem de ficção e encontra-se em fase de pré-produção e captação de recursos, devendo iniciar sua fase de produção e seleção de casting a partir de julho. As filmagens devem começar em novembro, com locações na Praia de Iracema, Beira-Mar, Mucuripe e Morro Santa Terezinha. Entre os profissionais envolvidos, Roberta conta que há uma negociação com o diretor de fotografia Mauro Pinheiro Jr, que assinou filmes como Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, e Linha de Passe, de Walter Salles. O elenco, que será quase todo local, terá uma protagonista interpretada por "uma grande atriz do cinema e da TV brasileira", que Roberta Marques prefere não divulgar o nome. O roteiro, assinado por Roberta e Luisa Marques, com desenvolvimento de argumento de Felipe Bragança, traz a história de uma garota de Fortaleza, moradora do Morro Santa Teresinha, dividida entre a facilidade de ganhar dinheiro na noite e o sonho de se tornar bailarina profissional.

A cineasta escreveu o primeiro argumento em 2003, na Escola Internacional de Cinema e Televisão de Cuba, onde participou de um workshop de roteiro. Depois ela retomou o projeto em 2006, quando ganhou o edital da Secretaria de Cultura do Estado para desenvolvimento de roteiro. Desde então, não parou mais. Natural de Maranguape, Roberta Marques estudou na Universidade de Sorbonne e na Sociétée Française de Photographie, em Paris. Mais tarde, ela se mudou para Amsterdã, na Holanda, onde se graduou em Gerrit Rietveld Academie e fez pós-graduação no DasArts - Advanced Studies in the Arts. Atualmente, Roberta se divide entre Fortaleza e Amsterdã. Entre outros trabalhos, Roberta dirigiu o documentário Icapuí: do lado de lá, uma co-produção entre a sua produtora Latitude Sul, o canal de televisão NPS- Televisie e a produtora Naked Eye, da Holanda; e o curta-metragem Acorda e o longa-documentário Deixa Ir, que foram co-produzidos pela Sambascope Foundation e Das Arts, de Amsterdã, e pela Latitude Sul.


Fonte: O Povo
Caderno: Vida & Arte
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