Clipping - Fonte Jornal Diário do Nordeste

Sotaque cearense

Entre convidados de outros estados e países, os músicos cearenses prometem grandes shows no X Jazz & Blues

No carnaval de 2000, quando o Festival Jazz & Blues deu seus primeiros passos, sob o signo da neblina da serra, no ineditismo de quatro dias de música instrumental, os músicos cearenses foram maioria entre as atrações. Acreditaram na aposta, por mais inusitada que parecesse na propalada ´Terra do Sol´, e deram início a um evento que viria a assumir proporções dificilmente imaginadas quando daquela edição de estréia.

Chegando aos 10 anos na edição que acontece de 21 a 24 de fevereiro em Guaramiranga, descendo para Fortaleza entre os dias 26 e 28, o Festival Jazz & Blues continua a ser um espaço importante para intérpretes, compositores e, principalmente, instrumentistas da cena cearense. Ao longo desses anos, o evento cresceu em número de shows e em repercussão, passou a fazer parte do calendário nacional de festivais do tipo e atraiu artistas consagrados, do Brasil e do exterior. Entre eles, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, João Donato, Pedro Aznar, Stanley Jordan e Nuno Mindellis.

Mas por maior que tenha sido o número de convidados acolhidos, que fora do contexto do festival dificilmente viabilizariam shows por aqui, o encontro musical em Guaramiranga nunca se distanciou dos músicos cearenses. Os mesmos que ao longo do ano mantêm viva a cena da música instrumental, apesar de dificuldades como os escassos espaços entre as casas noturnas de Fortaleza, os caminhos nem sempre acessíveis da formação, as limitações dos palcos e cachês dos centros culturais e o desafio de chegar ao próprio público local. Ainda que não escape de críticas, o festival conta com o reconhecimento de muitos dos músicos locais, pela contribuição prestada à geração de instrumentistas responsável por fazer do Ceará um Estado de músicos de excelência -mesmo que ainda sem a devida visibilidade. Lá como cá.

Foi assim que passaram por Guaramiranga, naquela primeira edição, artistas como Cristiano Pinho, Moacir Bedê, Márcio Resende, Pádua Filho, Ellis Mário, Carlinhos Patriolino e Marcílio Homem. Desde então, o leque só se ampliou. Muitos instrumentistas colecionam participações em várias edições do festival - entre muitos outros, nomes como os pianistas Italo Almeida, Renno Saraiva e Edson Távora Filho, o saxofonista e flautista Bob Mesquita, o jovem violonista Cainã Cavalcante e os bateristas Denilson Lopes e Adriano Azevedo. Este, de tanto estar presente ao evento, chegou a lançar um CD com seus melhores momentos no Teatro Rachel de Queiroz. Entre as cantoras, grandes intérpretes, como Fhátima Santos, Idilva Germano e a saudosa Lily Alcalay.

Atrações deste ano

Esse movimento persiste desde então, para proveito de platéias e artistas, que no festival ganham a chance de mostrar trabalhos mais elaborados. Shows preparados com melhores condições, maior número de músicos e sem as preocupações típicas da lógica de mercado imposta a quem ´faz a noite´. Uma chance de tirar da gaveta repertórios próprios, experimentar novas formações, ter a música em primeiro plano.

Este ano, a programação de artistas cearenses no festival prioriza novas apresentações de nomes que passaram pelo evento. Entre eles, destaques da cena blueseira da capital. As bandas Puro Malte, de Erich Greiner (guitarra e voz), Vitório Vieira (baixo), Cláudio Oliveira (guitarra e voz) e Aldo Machado (bateria), e Blues Label, com destaque para as guitarras de Arthur Menezes e Roberto Lessa, devem se encarregar de fazer a festa dos aficionados. Arthur, jovem guitarrista e vocalista que retorna ao festival, também mostra nesta edição um show direcionado para seu trabalho próprio.

Outro ´bluesman´ que deve arrancar aplausos na serra é Lúcio Ricardo, com seu timbre grave e rouco característico, desde que iniciou sua trajetória musical, a tempo de participar da Massafeira Livre, em idos de 1979, na banda Perfume Azul. Desde então, Lúcio acumula contribuições em diversos festivais e discos de compositores cearenses, além de ter lançado um CD ao vivo na Feira da Música. Este ano, Lúcio Ricardo é mais um a se reencontrar com o festival.

Outro veterano protagonista da música cearense surge como uma das atrações mais diferenciadas: o compositor Ricardo Bezerra, co-autor de clássicos da música popular, como ´Cavalo-ferro´ e ´Manera fru-fru´, parcerias com Fagner, no auge da explosão nacional do ´Pessoal do Ceará´. Em 2003, Ricardo lançou um CD instrumental, ´Notas de Viagem´, compartilhando as gravações com instrumentistas renomados, como Adelson Viana, Italo Almeida e Cristiano Pinho.

Um som instrumental com composições autorais também é a proposta do Projeto Timbral, reunindo músicos como o guitarrista Lu de Souza, o baixista Miquéias dos Santos e o tecladista Renno Saraiva. A banda já tocou no palco principal de Guaramiranga, aproveitando a ocasião para gravar um DVD ainda esperado. Este ano, voltam a subir a serra. Assim como o baixista Nélio Costa, outra presença freqüente no evento, seja na coordenação das ´jam-sessions´ abertas ao público, seja acompanhando variados instrumentistas e intérpretes. Este ano, Nélio retorna com um show próprio.

Outra atração a se reencontrar com o festival é o multiinstrumentista e compositor Luciano Franco, que lança no evento seu segundo disco, ´Rio Novo´. Contando exclusivamente com composições próprias, o álbum reúne bossas, baladas, choros e temas de inspiração jazzística e será a base do show, em que Luciano, que toca do contrabaixo ao teclado, opta pela guitarra semi-acústica, contando ainda com músicos como o baterista Daniel Alencar e os pianistas Edson Távora Filho e Adriano Oliveira. O Ceará, mais uma vez, sobe ao palco na serra.

Mais informações:
Festival Jazz & Blues 2009. De 21 a 24/2 em Guaramiranga e de 26 a 28/2 em Fortaleza. Realização: Via de Comunicação. Promoção: Sistema Verdes Mares. Informações: (85)3262.7230 e www.jazzeblues.com.br.

DALWTON MOURA
Repórter



Fonte: Diário do Nordeste
Caderno: Caderno 3
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